Bate-Papo

Você é linda, acredite!

O post de hoje é um pouquinho diferente do que vocês estão acostumados. Pensei muito para encontrar uma forma de vocês participarem mais do meu cantinho e, por isso, além de postar looks e dicas de leitores, também vou trazer histórias para ajudar outras pessoas. ? Para participar, é só mandar seu relato/experiência para normalidadeincomum@gmail.com ou usar a hashtag #normalidadeincomum no Instagram e Facebook para postar seus looks e dicas de beleza, tá? Para começar, trouxe um texto de uma leitora linda, que está lutando pela vida, e quis deixar um recado aqui. ~Não se esqueçam de deixar seus comentários sobre minha ideia e também sobre a história dela. Beijos, Ka.

“Meu nome é Valéria, mas pode me chamar de Vally. Tenho 20 anos, moro em São Paulo e, há cerca de dois meses minha casa tem sido o IPQ (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas), mais precisamente a Unidade de Comportamento de Transtorno Alimentar.

Estou internada porque estou doente. Tenho anorexia e bulimia nervosa.

O QUE É ANOREXIA: distúrbio alimentar que provoca uma perda de peso acima do que é considerado saudável para a idade e altura. Pessoas com anorexia podem ter um medo intenso de ganhar peso, mesmo quando estão abaixo do peso normal. Elas podem abusar de dietas ou exercícios, ou usar outros métodos para emagrecer.

CAUSAS: A causa exata da anorexia ainda é desconhecida, mas acredita-se que fatores biológicos, psicológicos e ambientais estejam envolvidos nas causas possíveis para a doença.

Eu sempre fui magrinha e sempre tive muita dificuldade pra comer. Pra se ter uma ideia, aos 15 anos eu pesava cerca de 40kg. Quando completei 16, tive minha primeira menstruação e meu corpo começou a mudar.

Em fevereiro de 2011, algo trágico aconteceu na minha vida: fui estuprada e engravidei. Foram dias muito difíceis. Consegui na Justiça o direito de abortar, achei que seguiria em frente, mas eu estava errada.

Depois dessa situação, meu corpo mudou de uma forma absurda. Em 6 meses eu engordei cerca de 15kg, e cheguei aos 60kg; para 1,50m de altura, eu estava com IMC(Índice de Massa Corporal) 26, o que significa sobrepeso. Eu já estava me sentindo muito incomodada.

Em uma consulta médica, ouvi as seguintes palavras de um profissional da saúde: ”Valéria você está gorda!”. Naquele dia meu mundo caiu, eu me senti feia, saí do consultório em prantos. Quando cheguei em casa, corri para o espelho para olhar meu corpo, e eu realmente estava gorda. Uma voz dizia na minha cabeça: ”Você está nojenta com toda essa gordura no seu corpo”.

Nesse dia eu comecei a cair num abismo. Eu precisava emagrecer, mas como? Então, eu fui procurar na internet formas de emagrecer, e a primeira coisa que encontrei foram os blogs ”Pró-Ana” (a favor da anorexia). Encontrei as mais diversas dietas, a maioria super restritiva, e comecei a segui-las. A maioria delas era baseada em comer uma maçã por dia e beber muita água, ou comer só salada. Eu cortei tudo o que gostava do meu novo cardápio: doces, refrigerantes, massas, frituras, e passei a comer apenas frutas e saladas.

Inicialmente, eu queria perder 10kg. Era a minha meta e eu consegui: por incrível que pareça, em um mês e meio, eu perdi tudo isso. Porém, eu não estava satisfeita, não me achava magra o suficiente e decidi que iria perder mais 5kg, e então ficaria com 45kg. Essa seria minha meta final.

Eu tinha pressa em chegar à minha meta de peso ideal, então comecei a fazer jejuns. Fiz um jejum de 11 dias, onde tomava água, refrigerante zero, chicletes, chás e sucos naturais. Consumia menos de 100kcl por dia, e cada grama que eu perdia era uma alegria, mas uma alegria que durava pouco, bastando eu me olhar no espelho. O espelho era meu pior inimigo, eu olhava e me via muito gorda. À essa altura, eu já não tinha mais autoestima.

Em dezembro de 2011, eu estava pesando 45Kg, mas não me sentia satisfeita. Me sentia gorda e queria perder mais peso, aquilo era um inferno e eu não tinha mais paz. Nesse mesmo período, fui diagnosticada com depressão, por conta dos abusos, e a anorexia piorou meu quadro depressivo. Eu não tinha o apoio da minha família, estava sozinha.

Em janeiro de 2012, eu deixei um pouco a neurose de emagrecer de lado. Tinha feito novos amigos, participava da Força Jovem Universal e, apesar de ainda estar depressiva, tentava esquecer dessas coisas que me faziam mal. Mas um ano depois, meu peso voltou a me incomodar. Eu não suportava olhar meu corpo, me sentia mórbida e na época eu estava com cerca de 49kg. Comecei a trabalhar, a comida que era servida lá era muito pesada e eu comia todo dia, sem contar os doces! Nessa época eu desenvolvi a bulimia, vomitava tudo o que eu comia para não me sentir tão culpada. Não durei muito nesse emprego, não passei na experiência, pois não conseguia me concentrar, estava sempre deprimida, cabisbaixa. Eu trabalhava com público e passei a ter muita dificuldade em interagir com as pessoas, eu estava me fechando cada vez mais no meu mundo de caos.

Quando fui demitida, já pesando 53kg, decidi que era hora de voltar a ter controle do meu peso. Eu não era boa em nada, não consegui terminar o Ensino Médio, não consegui me manter no trabalho, eu me sentia inútil e achava que a única coisa que eu sabia fazer direito era perder peso. Então comecei a fazer jejuns outra vez, abusava de um composto chamado ECA, que é usado para acelerar o metabolismo, me entupia de remédios. Eu não tinha controle, nem noção dos riscos que estava correndo. Comecei a ter dificuldades para perder peso, meu metabolismo já não trabalhava no mesmo ritmo devido às dietas restritivas e jejuns, mas eu não desisti. Passei a me exercitar por muitas horas diariamente, estava obcecada em emagrecer, não conseguia pensar em outra coisa. Me pesava todos os dias, contava calorias de todos os alimentos que comia,  não me permitia a passar de 500kcl por dia, e quando passava, me punia com laxantes e diuréticos. Também me cortava, porque achava que eu merecia sofrer. Voltei a perder peso e terminei o ano pesando 41kg.

Quando 2014 chegou, eu estava mais determinada do que nunca a emagrecer. Não saía mais com minhas amigas porque me sentia feia e porque os encontros sempre acabavam em comida, e isso me apavorava. Estava a cada dia mais depressiva, tentei me suicidar 3 vezes de 2011 a 2015, não tinha mais prazer em nada. No meio do ano, consegui chegar a 35kg, e ainda assim me sentia gorda. Queria emagrecer mais, nada na vida me dava prazer, eu assumi uma outra personalidade, era grossa com as pessoas,  não ouvia ninguém, vivia irritada. Minha mãe lutava comigo pra eu buscar um tratamento e eu me recusava, não assumia que estava doente, não queria jogar fora todo o meu esforço. À essa altura eu já estava tão fraca que mal conseguia andar, não tinha força nas pernas, parei de menstruar, meu cabelo ficou ressecado, fraco, minhas unhas começaram a cair, meu coração batia irregularmente, me sentia sempre cansada, sempre enjoada, tinha fortes dores no estômago. Mas, mesmo assim, não queria me tratar, não admitia que alguém interferisse na única coisa que eu podia ter controle, não ia trair a Ana (como as anoréxicas chamam a anorexia). O fim de 2014 foi difícil, eu estava insuportável, só falava em morrer, sentia um ódio mortal de mim, estava completamente perdida.

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Vally antes da doença e depois, na primeira internação. 

Em 8 de janeiro de 2015 eu tentei o suicídio mais uma vez, por conta do meu peso, porque não aguentava mais viver daquela forma, mas não tinha forças pra sair do buraco. Fui internada pela primeira vez em uma clínica psiquiátrica, fiquei 30 dias confinada, completamente drogada devido aos medicamentos que eu tomava. Quando saí, era para estar bem, afinal tinha passado um mês sob o cuidado de profissionais da psiquiatria, mas a realidade não foi essa: no domingo eu já estava desmoronando outra vez. Me sentia deprimida, só chorava, minha depressão se agravou, eu perdi totalmente o prazer em viver, não arrumava mais o cabelo, não escovava os dentes, não tomava banho, não comia, não saía de casa, minha vida se resumia a ficar sentada na frente da televisão o dia todo. Minha mãe, que sempre lutou comigo, começou desesperadamente a procurar tratamento no sistema público de saúde, pois a gente não tinha condições de pagar um tratamento particular e eu estava morrendo aos poucos, cada dia mais deprimida, pensando em morrer, estava desesperada. Em julho de 2015 conheci o AMBULIM, Ambulatório de Transtornos Alimentares do IPQ do Hospital das Clínicas. Iniciei o tratamento e comecei a participar de um grupo de apoio. Em 21/08/2015 fui internada na Unidade de Comportamento de Transtorno Alimentar, onde permaneço sem previsão de alta.

Vocês devem ter achado que essa história acabaria com um final feliz, com uma pessoa recuperada, contando sobre o drama que passou… Mas não, ainda não tive um final feliz, ainda estou lutando pela minha vida dia após dia, continuo deprimida e triste, por isso decidi contar a minha história.

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O recado que eu tenho pra dar é que você é LINDA do jeito que você é. Não deixe que ninguém diga o contrário. Se você é gordinha, se aceite, você é mais do os números na balança e não importa o que dizem de você. Se você sente que precisa emagrecer, procure um método saudável, converse com um médico, mas emagreça por você, pela sua saúde e não para ser parte de um ”padrão de beleza” ou para ser aceita pelos outros. Você não precisa impressionar ninguém, seja você mesma, seja autêntica. Você é perfeita porque Deus te fez assim, e TUDO o que Deus faz é bom, você é criação dEle, Ele te criou com amor e carinho, antes de você nascer Ele sonhou com você, pensou em cada detalhe, desde a cor da pele, até o formato das unhas, e você tem que se cuidar para Ele. Não é errado querer estar bonita, mas a beleza exterior não é o mais importante, ela é apenas reflexo de quem você é por dentro. Um grande beijo!” Vally Souza.

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Update: Vally recebeu alta há uma semana,  foi morar com a mãe no interior de São Paulo e disse que no momento  se sente com esperança de que em breve estará curada e voltará a ser feliz. Vamos orar por ela! ?

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6 Comments

  • Reply Janaína Oliveira

    Amei o post.
    Eu conheci a Valeria pessoalmente. Eu e mais duas amigas, fomos até o hospital onde ela estava internada.
    A Valeria é um amorzinho de pessoal, foi um prazer conhece-lá e falar de Jesus para ela.
    É ótimo saber que ela está bem. 🙂

    13 de janeiro de 2016 at 02:17
  • Reply Thais Ferreira

    Eu estive estes dias pensando justamente isso, sabe? Poxa vida, a mídia é realmente uma droga. Ela faz pessoas lindas como a Vally não gostarem de si mesmas, e acharem que existe um padrão para ser bonito.

    Eu li alguns dias atrás um livro do Augusto Cury que se chama “Ditadura da beleza e a revolução das mulheres”. Conta uma história fictícia de uma época em que as mulheres fizeram uma grande revolução contra a mídia, pois descobriram o que se passa nos “bastidores” dos desfiles de moda, e que as modelos que servem de inspiração para a grande maioria das jovens do mundo, são na verdade pessoas doentes. Pessoas que sobrevivem, mas não vivem. Elas, apesar de lindas e estimadas por todo o mundo, travam uma batalha com o espelho, e sofrem todo o tipo de males e fraquezas pela falta de comida. Ele disse que a maioria delas não chega a ter ciclo menstrual mais, porque o corpo concluí que ela não está saudável o suficiente para gerar uma nova vida.

    Meu coração se partiu ao ver a realidade desses fatos, já que todos os argumentos do livro foram baseados em fatos reais. Comecei a orar pelas pessoas que o inimigo tem conseguido alcançar com essa estratégia. E tomo isso como mais uma resposta de oração: alguém com nome certo e determinado para incluir em minhas orações. Vally, você vai conseguir! Deus é que está ao seu lado. E, vou orar por você, pois só o Senhor pode restaurar o seu coração e te trazer uma grande alegria de viver! Pode parecer clichê, mas é a grande verdade: a vida é bela, aproveite ?

    Beijos da Thais ! Conte comigo. Se quiser conversar, ou alguém para orar com você, é só me chamar no whatts: (61) 9213-9196.

    6 de janeiro de 2016 at 17:29
  • Reply Amanda Melo

    Vally não sei se vai ler meu comentário, mas você é linda e falo isso com toda sinceridade… Você vai conseguir vencer esse caos todo, o que nos faz vencedores não é por fim o que conquistamos, mas as dificuldades que superamos na trajetória… Também tive depressão, isso desde onde minha mente pode alcançar, desde muito criancinha… Desenvolví um transtorno do qual nunca nem meus pais souberam e ainda luto contra ele e o vencerei! tive surto psicótico com 19 anos, o que quase tirou minha vida, algo do qual não desejo para o meu pior inimigo, foram dois meses praticamente sem comer e dormir, ouvindo e vendo coisas, fui muito humilhada… Deus me arrancou desse poço do qual eu não via mais a luz… e hoje com 25 anos finalmente estou feliz e completamente livre da depressão… Saiba que tem alguém aqui torcendo, orando por ti! Eu tenho certeza, você vai sair desse poço. Eu acredito em você! Ah, e lembre-se disso NUNCA É TARDE PARA SER FELIZ! E isso você ainda vai ser muito!

    11 de dezembro de 2015 at 05:58
  • Reply Luanna Ravanelli

    Caraca que post incrível, estou torcendo muito pela Vally!

    BeijO :*
    ? Blog Luanna Ravanelli / Fanpage / Instagram

    7 de dezembro de 2015 at 13:09
  • Reply Tays

    ótima dica, auto-estima é tudo,depois que conheci um cara eu vi o quanto minha auto-estima era baixa e o quanto isso fazia mal para mim.

    http://tays-cristina.blogspot.com.br/

    6 de dezembro de 2015 at 03:53
  • Reply Micaely

    Que post mais lindo Káh ! Adorei !
    A Vally é um guerreira, que Deus abençoe ela e que nunca mais venha a ter essas doeças terríveis !
    Sim somos lindas do jeito que somos, somos especiais e feitas uniamente por nosso Deus !

    5 de dezembro de 2015 at 23:32
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